Papa Francisco enfrenta guerra secreta dentro da Igreja Católica

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Desde que foi eleito Papa , há seis anos, Francisco sempre manifestou o desejo de construir uma Igreja que se engaje contra a desigualdade, promova a humildade e acolha os mais vulneráveis — “uma Igreja pobre, para os pobres”, como muitas vezes disse. A modéstia, a abertura da Igreja e o envolvimento em debates políticos contemporâneos produziram uma imagem favorável do Papa não só entre a grande maioria dos católicos, mas também em pessoas de outras fés e sem religião, que perceberam em Francisco uma bem-vinda renovação, com uma ênfase maior na evangelização e no amparo do que nos aspectos morais da doutrina. Causa espanto, assim, que Marco Politi , um dos maiores vaticanistas vivos, tenha chamado seu novo livro, recém-lançado na Itália, de “A solidão de Francisco” (“La Solitudine di Francesco, ed. Laterza).



 — Há um paradoxo. Francisco conta com um consenso muito grande a seu favor entre pessoas de todas as religiões. Mas, ao mesmo tempo, dentro da Igreja não há tantas pessoas engajadas em apoiá-lo. Ele enfrenta não só adversários, mas uma grande passividade — afirmou Politi em entrevista ao GLOBO. — Algumas pessoas estão com ele, outras estão contra, e outras simplesmente permanecem paradas.

No livro, o autor sustenta que as oposições estão dentro e fora da Igreja. No Vaticano e em episcopados ao redor do mundo, Francisco se vê às voltas com cardeais e bispos que muitas vezes permanecem inertes diante de suas ordens. Fora dela, seu discurso em defesa de imigrantes, a favor da preservação do meio ambiente e crítico a medidas de líderes globais como Donald Trump encontra resistência no crescimento dos nacionalismos e dos populismos, que muitas vezes se opõem a suas visões sobre a ecologia, a solidariedade entre os povos e a justiça social.



Guerra subterrânea

De acordo com Politi, nem todos os opositores de Francisco o são abertamente. É verdade, ele ressaltou, que nos últimos anos houve uma “escalada ininterrupta de críticas”, anônimas ou públicas. Ao sinalizar, no documento “Amoris Laetitia” (A alegria do amor), de março de 2016, para a possibilidade de que pessoas divorciadas e que se casaram outra vez recebam a Eucaristia, por exemplo, Francisco se tornou alvo de tradicionalistas que o acusam de violar a doutrina da Igreja.

Seis meses depois da publicação, quatro cardeais pediram esclarecimentos em uma carta. Em julho de 2017, 40 membros do clero e teólogos publicaram um manifesto contra “a propagação de heresias”. Pichações anônimas em Roma e até um pedido de que Francisco renuncie, vindo do ex-núncio do Vaticano nos EUA Carlo Maria Vignanò em 2018 e reiterado em entrevista ao Washington Post na semana passada, levaram o historiador da Igreja italiana Andrea Riccardi a dizer que nos últimos cem anos não houve oposição tão forte a um Papa.

Segundo Politi, estas críticas são agressivas, mas minoritárias em relação ao todo da Igreja. Ele as vê acompanhadas por uma rede mais vasta e sutil. A resistência conservadora a Francisco, ele disse, se manifesta em episcopados que simplesmente ignoram a sua agenda reformista.

— Há uma guerra subterrânea na Igreja Católica — afirmou. — Nem tantos cardeais se manifestam publicamente e praticamente todos dizem que apoiam o Papa. Mas a maioria dos opositores atua silenciosamente. Eles conseguem bloquear a agenda às vezes com uma oposição aberta, mas, principalmente, por meio da inércia e de manobras por baixo dos panos.

O vaticanista diz que a estrutura sigilosa e a extensão da Igreja tornam difícil estimar o tamanho dessa rede, mas que ela tem força o bastante para atrapalhar e até impedir as reformas de Francisco. Como exemplo, cita a iniciativa do Papa para estabelecer um tribunal para julgar padres acusados de pedofilia, anunciada 2015, que não avançou.

Outro caso “clamoroso”, segundo Politi, foi o chamado “escândalo Karadima”, no Chile. Por anos, a cúpula da Igreja no país não fez nada para investigar denúncias de abuso sexual contra um de seus mais famosos padres, Fernando Karadima. Francisco negou as denúncias repetidas vezes, segundo o vaticanista, devido ao acobertamento da cúpula chilena, que teria lhe enganado. O episódio teve uma reviravolta após o Papa nomear um investigador especial, que produziu um relatório completo de 2.300 páginas descrevendo em detalhes as denúncias. O episódio levou o Papa a assumir que incorreu em “graves equívocos de avaliação”, pelos quais pediu “perdão”.

Geopolítica desfavorável

A agenda ambiental e social promovida por Francisco também encontra desafios na geopolítica global, com a onda soberanista, nacionalista e antiecológica em países como Itália, Brasil e Estados Unidos. De acordo com a teóloga argentina Emilce Cuda, que, além de interlocutora de Francisco, é também especialista em populismo, a resistência não é tanto ao Pontífice, mas sim às suas ideias e valores. A Igreja, observa ela, está inserida na sociedade. Em um momento em que ideias de “egoísmo nacional” se fortalecem, é previsível que quem se levanta a favor dos imigrantes e dos pobres tenha opositores.
 — A oposição não é ao Papa Francisco, mas ao que ele representa e torna visível. A oposição é antes de tudo ao discurso de setores descartados socialmente — afirmou Cuda . — O problema do Papa é que as pessoas o escutam.


Conselhos de Bannon

Politi afirma que o apoio que Francisco oferece aos imigrantes é um dos motivos que explicam o fato de sua aprovação na Itália ter caído de 88%, em 2014, para 72%, em 2018, segundo pesquisas de opinião. A oposição a imigrantes é uma das principais bandeiras do vice-premier do país, Matteo Salvini, hoje o político mais popular da Itália.

Em abril, foi divulgado que o ex-conselheiro da Casa Branca Steve Bannon aconselhou Salvini a tratar Francisco como “um inimigo”, incitando-o a “atacá-lo diretamente”. Bannon, que já se referiu publicamente a Francisco como um “globalista”, foi um dos convidados do jantar promovido em março pelo presidente Jair Bolsonaro em Washington, assim como o ideólogo Olavo de Carvalho, que, em referência a uma carta de Francisco para o ex-presidente Lula em maio, disse que o documento não tinha “autoridade nenhuma” e “era só a opinião de um argentino”.

Não se sabe o quão disseminada pode ser a “resistência silenciosa” denunciada por Politi no Brasil, mas três teólogos e estudiosos do campo religioso no país afirmaram que o apoio a Francisco é amplamente majoritário entre os brasileiros.

— Falar em oposição é um pouco exagerado. Embora haja grupos mais conservadores que fazem oposição, eles exprimem setores muito limitados — afirmou o presidente do centro católico Dom Vital, Carlos Frederico Calvet da Silveira, que, contudo, ressalta notar “um crescimento de grupos muito radicais e até defensores de teocracia”.

Em âmbito global, Gerard O´Connell, correspondente no Vaticano da America Magazine e autor de um recém-lançado livro sobre a eleição de Francisco, também não concorda com a tese de uma grande dissidência.

— Há quem não goste de seu foco nos pobres, mas todos os Papas no século XX tiveram oposição. Eu acredito que ele tenha muito apoio — afirmou. — A novidade é que agora muitas pessoas podem se exprimir em redes sociais e blogs, com uma linguagem muito violenta, o que chama a atenção.

Politi concede que a oposição, “muitas vezes de caráter muito vulgar”, na internet seja de fato minoritária e inédita, mas mantém-se fiel à sua tese de que Francisco está sozinho.



— No século XX, havia muitas vezes debates teológicos, mas João XXIII e Paulo VI tiveram amplo apoio para levar adiante as suas reformas. O que temos agora são situações de sabotagem.
O GLOBO

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