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Violências e traumas empurram pessoas para a vida nas ruas

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“Sou filho de uma prostituta que era casada e enganava o marido com o meu pai. Ela viajou para me ter e me deixou num prostíbulo em Dourados (MS), onde fiquei até os seis anos. Nessa época a dona do lugar encontrou meu pai e me entregou para ele. Trabalhava e apanhava com o meu pai. Nunca fui para a escola. Fugi dele várias vezes e o matei com oito anos, quando ele me pediu para fazer a sua barba”.

O depoimento é de Itamar Correia de Lima, 43 anos, que mora nas ruas desde 1982, depois de ter passado por todo o tipo de experiência violenta, tiros, facadas, abuso sexual, moral, psicológico e por três famílias adotivas, onde só trabalhava.

Ele contou sua história na manhã desta sexta-feira (6), no auditório da Defensoria Pública de Mato Grosso, onde a situação de quem vive na rua foi tema de debate.

O evento - que teve como públicos assistentes sociais, psicólogos, servidores da saúde, defensores e estudantes - trouxe conceitos sobre os vários tipos de violências praticadas contra quem está morando na rua, possibilitou o debate sobre as principais dificuldades que os profissionais, que atuam na ponta, encontram para garantir a eles saúde e assistência social e por fim, capacitou os participantes para preencherem a Ficha de Notificação de Violência Contra Moradores em Situação de Rua.

Iniciativa

O encontro foi organizado pela defensora pública que atua na área criminal e integra a Rede de Proteção a Pessoas em Situação de Violência de Cuiabá (RPPSV), Rosana Monteiro, que explica a necessidade de dar visibilidade à situação grave e problemática de violação de direitos de pessoas que vivem situação similar à de Itamar.

“O início do meu envolvimento com o tema foi em 2014 e me engajei, me apaixonei. De lá para cá articulamos a criação da Rede, uma legislação municipal que cria o Comitê multisetorial para debater a situação em Cuiabá, mas ainda precisamos andar muito. Trazer o morador para protagonizar a sua história, tirá-los da invisibilidade e garantir a eles a dignidade humana. Esse é o foco de nosso trabalho”, informou Rosana.

Dificuldades 

A defensora acredita que a ausência de estatísticas, dados, de um perfil de quem está vivendo na rua é um grave problema, que inviabiliza a estruturação de políticas sociais eficazes. “Uma das teclas que batemos no dia de hoje é quanto ao preenchimento da Ficha, que por lei federal, é de notificação compulsória. Quando uma pessoa em situação de rua chega na rede pública de saúde, com ou sem queixa de ter sofrido violência, o atendente deve ser capaz de perceber se houve agressão, maus tratos, abusos, se a pessoa vive em situação de rua e notificar”, reforça.

A secretária-adjunta de Assistência Social e Desenvolvimento Humano de Cuiabá, Marlene Vieira, explica que o trabalho é árduo e exige sensibilidade, empatia e humanidade. “O nosso trabalho é complexo, exige envolvimento, pois o nosso foco é resgatar a dignidade em pessoas que perderam tudo ao ponto de irem viver na rua. E iniciativas como essas são importantes para dividir conhecimento e sedimentar as experiências. As fichas não são preenchidas, mas é obrigação legal”, conta.

A secretária lembra que o tema é doloroso e reforça que ninguém vive nas ruas por motivos fúteis. Há sempre um evento, um marco que divide a vida deles antes e depois dessa decisão. “Temos um morador de rua que nos diz que tinha uma vida estruturada na Bahia, com filha, família e que usava drogas de forma controlada. Um dia ele acordou preso e lá, passou por toda sorte de violência, foi abusado e perdeu o sentido da vida, perdeu todas as referências. Deixou tudo pra trás para esquecer o passado, e está nas ruas”, conta.

O passado de tragédias, angústias, sofrimentos é um tormento recorrente de quem decide abandonar a estrutura social, afirma Itamar. “A minha história é a história da maioria da minha família de rua. Lá, na rua, estamos mais seguros. É como nos sentimos. Eu já fiz de tudo e já sofri de tudo. E vivo todos os dias para esquecer o meu passado. O que mais me atormenta não é dormir na rua, estar exposto na rua, mas o meu passado. Tudo que já sofri e já fiz sofrer”, conta.

Dados 

A adjunta de Assistência Social lembra que no ano passado um levantamento indicou a existência de 600 moradores em situação de rua em Cuiabá. Porém, ela acredita que o número seja maior. No município, a estrutura específica para abrigá-los é de três albergues, cada um com 50 vagas. “Eles vivem lotados. E ali eles não podem morar, mas dormir. Precisamos de novas estruturas, mas locar para esse fim é difícil e construir, muito caro. Não é um trabalho fácil”, diz.

Marlene garante que um problema recorrente é o não tratamento do uso de álcool e drogas. “Como as histórias são muito tristes, de ruptura com uma vida comum, posso dizer que todos eles fazem uso de álcool ou de drogas ilícitas e não existem estruturas para desintoxicá-los. Depois de identificar a pessoa que ainda existe nelas, esse deveria ser o passo seguinte. Mas não temos onde fazer”, esclarece.

A abertura da Oficina foi feita pelo defensor público-geral, Silvio Jéferson de Santana, que afirmou a importância do debate, da iniciativa, informando que as portas do auditório estão abertas para eventos similares. “Todos são muito bem recebidos aqui, sintam-se em casa. Esse é o nosso primeiro evento no auditório, após a inauguração, e quero parabenizar a todos por estarem aqui, num dia como esse, uma sexta-feira de jogo do Brasil na Copa do Mundo”, disse Santana.

Durante o evento o defensor anunciou que reforçará a equipe de assistentes sociais da Instituição convocando quatro das aprovadas em concurso público, para auxiliarem na rede, outros trabalhos do órgão.

Participaram como palestrantes na Oficina a defensora Rosana que falou sobre a estrutura da Rede, sua função, histórico e sobre as estruturas criadas no país e em Cuiabá para tratar do problema. O professor de psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Amailson Sandro de Barros, que tratou dos vários tipos de violências praticadas contra a população de rua, a especialista em saúde coletiva, Josiane Rodrigues, que explicou o preenchimento da Ficha e apresentou o fluxo de atendimento na rede, além de dados nacionais sobre o que leva as pessoas para as ruas.

Os três motivos preponderantes foram álcool e outras drogas, 35,5%, desemprego, 29,8% e desavenças na família, 29%.



Fonte: Midia News


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